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Escolhas de almas

Porque é que me escolheste para mãe? Eu pedi-te assim tanto e tu acedeste? Tiveste assim tanta pena que te resignaste? Resignaste-te? Acedeste? Porque é que me escolheste, querias sofrer tanto? Na leitura de aura disseram-me que vieste cá trabalhar o abandono, que foste abandonado noutras vidas e vens aqui curar isso. Mas eu tenho a sensação que te abandono constantemente. Era isso que querias? Todos os dias penso no abandono. Todos os dias penso que te abandono. Todos os dias penso que te quero abandonar. Todos os dias penso que não te quero abandonar. Porque é que me escolheste? Devias ter escolhido uma mãe mais paciente, mais capaz, que percebesse as tuas necessidades, que estivesse sempre disponível, que não te quisesse colocar numa creche e criar-te 24x7. Tu mereces isso. Tu mereces que te acolham. Tu mereces ser criança. Tu mereces ser tratada como uma criança. Tu mereces todo o amor do mundo. Porque é que me escolheste? Eu queria tanto ser mãe mas não estava à espera que fosse d...

Vergonha #2

Por vezes releio o que escrevo aqui. E, meu Deus, que vergonha. "Eu escrevi aquilo?" "A sério, que drama." "Que vergonha." Quem é que vai ler isto? Porque é que eu escrevi isto? Não foi assim tão horrível. O que é que as pessoas vão dizer, quando lerem (se lerem)? Que tristeza. Mas isto vai ser útil para alguém? O que é que ganho (ganhei) com isto? São apenas desabafos, vómitos de dias e noites mal dormidos, mas é estranho ler-me. Disse demasiadas coisas, revelei demasiado, mas precisava deitar cá para fora. Faz sentido agora? Não. Ainda faz sentido? Ainda é muito recente, por isso, sim. Não posso desvalorizar ou diminuir o que senti mas que vergonha ao reler-me. Não voltes ao lugar onde foste feliz, ou, neste caso, onde foste infeliz. E é verdade.

Estado de alerta

Eu devo ter um problema qualquer mental. Quase 3h da manhã. Bebé finalmente a dormir com o pai (provavelmente no colo). Eu podia ir dormir, descansar, fechar os olhos, mas não, aqui estou eu, acordadíssima a escrever e a ver redes sociais. Não consigo sair do banco da cozinha. É só levantar. Não vou para o quarto, não quero acordar, vou para a sala. Mas não vou. Estado de alerta? Culpa? Sim, culpa. Do meu comportamento. Culpo os outros por não me terem avisado que iria ser assim. O mais provável, como tenho constatado, é que me tenham avisado, eu é que na minha soberba, não ouvi. Mas ninguém tem culpa, eu é que sou a responsável por este bebé.  Agora. Eu é que tenho de suprir as necessidades dele. No agora. Não interessa se os outros avisaram ou não, já estou neste barco, tenho de arcar com as consequências. Eu sou o cérebro adulto. Eu é que tenho de perceber o que fazer. Os outros só estão de passagem. Como é que o bebé vai confiar em mim se eu largo-o na primeira dificuldade? Eu ...

Mas afinal, o que é que tu queres?

A sério, o que é que tu queres? Dou-te colo, dou-te mama, estás na caminha. Fico estatelada na cama, imóvel para dormires e não caíres de de cima de mim. E não dormes. Simplesmente, não dormes. Choras. Muito. Estou deitada contigo desde as 18.30, não jantei. Aguentei a fome, dó-me o estômago, e a vontade de ir à casa de banho. Imóvel. Para que não acordasses. Não dá. Não aguento. Será que és o único assim? O que falta fazer? Não sei o que fazer. Preciso dormir. Tu precisas dormir. Depois de 2 meses de relativa rotina e estabilidade... Eu esperava 40min imóvel contigo no colo, eu deitada, e deitava-te na tua caminha e ficavas. Só acordavas umas 2 vezes. Onde é que eu errei? Foram as férias? Foram os colos infinitos de pessoas desconhecidas? Foram as festas? Foram as saídas de rotina? É a regressão dos 9 meses? São os dentes? Por favor, diz-me o que fazer para tu não chorares, sentires-te bem, não te sentires exausto do sono e dormires. Só dormires.

O que é que vai acontecer aos meus pais?

E eu estou a escrever isto tudo, estou a escrever sobre os meus pais, e se eles lerem o que é que vão pensar? Toda a minha vida foi pautado por isto: sobre o que é que os meus pais iriam pensar. Ou melhor, o que é que vai acontecer aos meus pais se lerem isto. E isto sim foi toda a minha vida: O que é que vai acontecer aos meus pais se eu fizer X, se eu disser Y, se eu escrever Z? "O que é que vai acontecer aos meus pais?". Como se eu achasse que a minha mãe se fosse suicidar ou o meu pai nos fosse abandonar. E este sim, foi sempre o meu pensamento: A minha mãe suicida-se e o meu pai abandona-nos.

Incapaz

 Voltando um pouco atrás. Eu sempre fiz as coisas por mim, mesmo contrafeita fazia sozinha. Fazia as coisas sozinha mas contrafeita porque sabia bem que houvesse alguém que as fizesse por mim. Como a princesa que gostava de ser salva pelo príncipe encantado. Recuando até um pouco mais, a minha avó sempre me chamou de freira. E olhando bem, os meus pais faziam tudo por mim. Cozinhavam, limpavam, faziam-me alguns trabalhos de casa (lembro-me do meu pai fazer uma rosa dos ventos), quando eu estava doente falavam por mim. Sempre que havia algo mais difícil eles faziam por mim. Sempre que havia alguma dificuldade eles estavam lá. Eu nem precisava dizer nada. Eu acho que chegou a um ponto em que eles assumiam que eu não conseguia. Ou não conseguia à maneira deles. Ou não conseguia na rapidez deles. Na altura sabia-me bem, agora sinto-me uma incapaz. Sinto-me uma incapaz. Ainda hoje, a tratar do meu bebé, mesmo fazendo sinto que preciso de ajuda do meu companheiro. Ou sinto que o meu comp...

Vida

Continuando o capítulo anterior. Preciso de ser responsável pela minha própria vida mas isso é tão difícil e nada cómodo. Como posso ser responsável pela minha própria vida se durante todos estes anos chutei as culpas para os outros. É muito fácil, muito cómodo culpar os outros, tira-me a responsabilidade. Não preciso de fazer nada. Aliás, não faço nada. Limito-me a culpar e isso ajuda-me a não agir. Engraçado que eu ajo, e agia, muito em função dos outros. Mas agora com outra consciência de que tenho de ser responsável por mim mesma, não por mais ninguém, não pelos meus pais, não pelo meu irmão, não pelo meu companheiro, não pelo meu filho é muito estranho. Estranho é a palavra correcta porque eu fiz tudo por causa dos outros. Claro que fazia coisas por mim mas sempre à espera da valorização dos outros. Agora, ser responsável por mim, de mim para mim, sem depender de ninguém...