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Seca

Sinto um ódio e uma raiva dentro de mim proporcionais à invisibilidade que sou. Li algures que a raiva são as lágrimas que não choramos. Dizem-nos que não podemos chorar, que não faz sentido tantos pensamentos negativos, que não faz sentido pensar em tantos pensamentos negativos, que a tristeza não leva a lado nenhum. Eu, que chorava por tudo e por nada. Chorava às escondidas, mas chorava. E hoje, tenho vontade de chorar, fico com lágrimas nos olhos, com um nó na garganta, mas não cai nada. Já não consigo chorar. Seca. Seca por dentro e por fora. Azeda. E agora percebo, quanto menos choro mais raiva tenho. Mais vontade de partir tudo tenho. Mais violência tenho dentro de mim. Mais violenta me sinto. No que é que eu me estou a tornar?

Egoísta

Disse tantas vezes, de mim para mim, que era egoísta, que houve alguém que materializou isso. Chamou-me egoísta. E foda-se. Não gostei. Chamaram-me de egoísta na única vez que disse que ia fazer uma coisa para mim. Que a bem da verdade nem é só para mim, é para mim e para a bebé. Nem para ser egoísta sou boa porque faço em prol dos outros. Eu sabia que a discussão ia descambar. Eu sabia que não era tão grave assim. Eu sabia que chegando a esse dia ia correr tudo bem. Mas descambou. Eu tentei voltar atrás. Mas chamaram-me de egoísta. Sim, estou armada em vítima e vou continuar até ao fim do texto. Saem às horas que querem. Chegam às horas que querem. Almoçam, jantam quando querem. Vão onde querem. Fazem o que querem.  Bebés a chorar? Não querem saber, os compromissos são mais importantes. Saem. Engraçado, que comigo, para sair a horas é um cabo dos trabalhos, mas para as suas coisinhas já tem de sair a horas. Continuando. Agora, no único dia que eu preciso de um carro, porque também...

Dificuldade (até) em escrever positivo

Ao olhar para as publicações anteriores vejo que todos os títulos estão em português excepto um o  Happy . Claro, tenho publicações da gratidão, mas aquele em específico é diferente. Não era um exercício. Era o que eu estava a sentir no momento. Aqui vejo que tenho dificuldade em nomear palavras positivas. Parece que não as posso dizer em português porque fica demasiado real. Tenho vergonha de ser feliz? Tenho medo de ser feliz? Se for feliz será que tenho tanta atenção do que se estiver na miséria? Será que se eu disser em português, a felicidade esvai-se por entre os dedos? Em inglês pareceu-me mais fácil de dizer. Happy e Feliz . Happy  parece ser mais superficial, uma alegria breve (citando o meu querido Vergílio Ferreira), fugaz, que foge como areia por entre os dedos. Feliz é um estado de alma, de plenitude, de completude, talvez mais complexo. Na verdade, feliz  é meramente uma palavra, não me parece ser tão profundo quanto isso, no entanto, tive mais facilidade e...

Condescendente

Confirmo, afirmo, assumi, aceito. Sou condescendente. Tenho um bocado a mania da superioridade arrogante. Demoro a chegar às coisas, é duro, é difícil, são montanhas às vezes, e quando chego ao topo, olho cá para baixo com uma certa sobranceria. Às vezes chego ao topo com tanta dificuldade, mas chego, que olho para as outras pessoas e penso: "Não, elas não conseguem chegar aqui" "Não, elas não conseguem fazer melhor" "Não, eu sou melhor" "Não, elas não conseguem" E logo em seguida penso: "E se chegam?" "E se fazem um melhor trabalho?" "E se não teem tanta dificuldade?" "E se conseguem fazer o mesmo que eu de um modo mais leve e fácil?" "Será que eu fui demasiado dramática?" "Se calhar não foi bem assim" "Se calhar era mais fácil e eu chateei-me à toa" "Será que foram as hormonas?" "Será que as hormonas são uma mera desculpa? "Será que eu sou mesmo assim? ...

Escondido

Eu penso que me falta qualquer coisa para ir mais fundo. Há aqui qualquer coisa que não me está a deixar ir lá em baixo. Sempre que penso na minha vida, no que passei, no que não passei, no que senti ou não senti, o que fiz ou não fiz, o que fizeram ou não fizeram, encontro 1001 razões, justificações, racionalizações. "Isto acontece agora porque vem do passado uma vez que me aconteceu isto, aquilo e o outro". Racionalizo o que se passa agora com o que me aconteceu no passado. E está tudo certo já que nós somos (também) o resultado do nosso passado. Mas há qualquer coisa que falha. Já encontrei saídas, aberturas, correspondências com o medo. Do medo saltei para a vergonha. Percebi que toda a minha vida foi regida pela vergonha e que a vergonha fez ter medo de tudo e todos. Mas há algo mais fundo do que a vergonha. Algo mais fundo do que o meu passado. Algo mais profundo. Escondido.

Injusto

Sinto-me terrivelmente só. Mesmo rodeada de algumas pessoas, sinto-me só. Falo com elas, fico contente. Fico contente por saber delas e fico contente por falar. Falar com pessoas. Não com crianças. Não para um ecrã. Pessoas adultas. Sabe bem. Na altura. Mas quando volto a mim, sinto um vazio. Sinto o vazio. De que serviu falar? Gosto de uma companhia genuína. Gosto de falar com continuidade. Não é sabendo que passado uns minutos relembro toda a solitude que senti e sinto. Tenho vergonha de falar, por isso digo que gosto mais de ouvir que falar. Mas quando falo parece que é demasiado apressado, não digo tudo o que gostaria de dizer. A boca abre-se e fala e eu vejo-me a falar nada do que queria, mas falo como se não falasse há 1000 anos. Será injusto dizer que me sinto sozinha mesmo estando acompanhada?

Escrever um livro

Acho que já estou farta de dizer que quero escrever um livro. A questão que se coloca (que me coloco) é: PORQUÊ? Não sei, já há uns bons meses que tenho esse desejo (esse sonho?). Tenho muitas ideias, muitos começos, até inicio um textozito manhoso, só que, obviamente e como sempre, nunca dou continuidade. Nos entretantos, vejo pessoas à minha volta a escrever livros. Vejo pessoas, conhecidas e desconhecidas, que escrevem sobre os temas que tenho em mente. Vejo pessoas que escrevem e a gramática nem é por aí além. Tenho estes bloqueios: Quero escrever um livro, uma coisa diferente, original, mas parece que toda a gente teve a mesma ideia. Quero escrever mas parecem-me coisas curtas que despacho numa página ou duas. Quero escrever sobre um tema mas outros já escreveram sobre esse preciso tema. Quero escrever mas tenho medo de não ser fluida e fluente o suficientes, com uma gramática excepcional e um vocabulário soberbo. Então acabo por não escrever nada. Vejo outros a realizarem o meu s...

Sobreviver

Quase 39 anos e quase 2 anos a sobreviver (fora os outros 37). Dizem-me que a dor não é demasiado profunda porque se fosse já me teria mexido. Acordo cansada, mesmo tendo dormido. Acordo sem vontade. Acordo com sono, mesmo tendo dormido bastantes horas seguidas. Sair à rua, passear, apanhar sol. Com que objectivo? Sinto-me na mesma. Só. Só, mesmo acompanhada. Quero falar, quero desabafar, quero gritar, quero espernear, quero dizer tudo o que está entalado, quero ficar chateada, irritada, possessa, furibunda, histérica. Não sinto que possa. Mesmo em casa que é onde nós deveríamos sentir à vontade. Não posso porque me rejeitam, porque não posso ser assim, porque não tenho o direito de me sentir assim. Só me posso sentir bem. Feliz. Em paz. Não me sinto em paz. Sinto-me parada com um sorriso no rosto para que a família se sinta bem. Não sabem. Não conseguem lidar com a tristeza. Com a raiva. Com o ódio. Não sabem. E eu também não sei lidar. Deixo-me estar. Dizem-me que a dor não é demasia...

Pena

O meu pai. O meu herói. Por pior que fosse, por pior que fizesse (e faz) foi (é) sempre o meu herói. Retrógrado, fasciszóide, perfeccionista, exigente, machista, agressivo, brincalhão, conta piadas que não teem piada e ainda as explica.  Relação extremamente tóxica com a minha mãe. Sim, tudo isso e, ainda assim, herói. Como assim? Não sei. Tenho pena do meu pai. Desde que me lembro de ser gente que tenho pena dele. E, que por causa dele, tinha pena de todos os homens. Podiam ser umas bestas, agressivos, tóxicos, maus, doentes e, contudo, (in)dignos de pena. Pena porque apesar de tudo dependem das mulheres. Batem nas mulheres, humilham as mulheres, objectificam as mulheres, inferiorizam as mulheres... Mas não sabem viver sem as mulheres. Sobrevivem à conta das mulheres. Apesar da relação dos meus pais ser extremamente conturbada nunca quis que se separassem. Queria a família unida, não queria ter de dividir a vida, escolher alguém, começar tudo de novo. Como faríamos no Natal, Ano N...

Companhia

Será que custa muito fazer companhia? Só estar ali? Em presença? "Não estou aqui a fazer nada.". Para um bebé talvez não, mas e para mim? Eu já não conto? Com um bebé a chorar, a mamã também chora por dentro. Há alguém que veja? Que sinta? E que, principalmente, não se sinta incomodado e apoie? Não se sinta incomodado e não negue aquilo que a mamã sente? Se a mamã sente é porque sente. Se é muito, se é pouco, não interessa, não é o outro que sente, é ela... Sou Eu. Soueu.

O que falta?

Não sei o que mais faça. Estou com ela. Não a deixo chorar sozinha. Tento compreender. Dou colo. Dou amor. Dou-lhe riso. Tento estar o mais próxima possível. Tento fazer com que não se sinta rejeitada. Tento fazer com que não se sinta sozinha. Tento fazer com que não chore sozinha. Tento cumprir com as rotinas ao máximo (e eu não gosto de rotinas). Tento dar-lhe tudo o que tenho e até o que não tenho. Sinto-me sugada. Sinto que tento tudo, penso em tudo. Tento fazê-la sentir-se bem. O que falta?

Mudança

Decidi continuar o desafio da Gratidão noutra rede social. Não sei porquê mas achei que devia mudar para ser mostrado (sim, quero-me mostrar ao mundo, quero deixar de ser invisível). Além de que gostava que as pessoas se juntassem a mim, é um desafio bonito. Quero tornar-me consistente, fazer uma publicações todas profissionalonas. Estava a precisar de fazer um desafio que me obrigasse a fazer algo todos os dias mesmo que não tenha vontade. Sim, eu sou daquelas pessoas altamente entusiasmadas ao início, é o melhor do mundo, é o fim do mundo se eu não fizer.... Mas falha um dia por algo externo a mim ou porque a motivação começa a falhar... Eu começo a pensar... E pronto, desisto. Não posso ser assim, não quero ser assim, não quero desistir a meio, quero mudar esse padrão. Quero fazer uma coisa com princípio, meio e fim. Com cabeça, tronco e membros. Com corpo e alma. Qual é o exemplo que quero dar para o bebé? Sim, também é tudo sobre o bebé. E é. Talvez seja ele que me esteja a incent...

Gratidão - dia 8

1 - 3 muito boas sestas 2 - dormi 3 - gosto sempre de ver os diferentes formatos das nuvens 

Gratidão - dia 6

1 - Pela primeira vez, o bebé adormeceu sozinho em cima do tapete e dormiu por 30 min 2 - Dia de ter aprendido que ando a cometer os mesmos padrões e ainda não me tinha apercebido (de alguns) 3 - Percebi que ainda não consegui relaxar, apesar do bebé já me dar umas folgas, ainda não consegui parar, por isso, sou grata por perceber que tenho que me obrigar a parar: a fazer mesmo o tal  reset.

Gratidão - dia 5

Hoje vai atrasado, mas ontem tive mixed feelings . Vamos lá mudar isso hoje e pensar em 3 coisas pelas quais fui grata ontem. 1 - bebé deu-me pela primeira vez 2h de folga à noite 2 - tenho comida 3 - tenho NET e telemóvel que me dá para passar o tempo durante as sestas

Julgamento

Ando a escrever muito e em todo o lado sobre a minha infância, o que me diziam ou não, o que gostava que me tivessem dito e não disseram, atitudes boas e principalmente más que tive de presenciar. Partilho muitas stories sobre como educar os bebés/crianças (ou, pelo menos, a minha visão do que é educar/orientar). Mas tudo isto também não é julgar? Eu julgo os outros por julgarem. Apesar de termos ideias diferentes, isso não me faz ser igual a eles? A minha (ainda) não aceitação do passado faz com que, mesmo querendo fazer de outro modo, acabe por ser igual a quem eu critico. Tenho a sensação de que aquela máxima "como queres um resultado diferente se todas as tentativas são as mesmas" é semelhante ao "eu tento de modo diferente mas tenho um resultado igual ao de sempre". De que vale tentar outra coisa se a base, a minha base, os meus princípios não foram limpos? Parece que faço tudo de modo deturpado. Quero fazer o bem, o melhor, ou o melhor que posso, mas não é de ...

Gratidão - dia 4

1 - terem-nos feito comprinhas 2 - ouvir Xutos (novamente) 3 - dá dá dá

Gratidão - dia 3

1 - consegui sair da cama por 20min 2 - adormecer correu bem apesar de ter dormido menos 3 - fazer um mini curso de sono que me ajuda a ter outra visão 

Incompetência

É incrível como eu passo todas as horas, todos os dias com o bebé, dou dicas aos outros de como adormecer e depois eu é que sou a incompetente que não a consegue pôr a dormir. Nestes últimos dias andava a adormecer sem chorar, no entanto, nos últimos 3 dias é chorar para adormecer. Eu sei que ando extremamente irritada e, claro, isso passa para o bebé. Como é que ele há-de dormir bem se eu não ando bem? Como é que eu hei-de descansar se passo a noite a acordar, vira para um lado vira para o outro e depois... Cúmulo dos cúmulos, bebé acorda mais cedo, logo, eu acordo mais cedo, é para levantar o bebé, viro para o M para acordar também, e o que é que ele responde? "Preciso de descansar". Precisas de descansar? O menino precisa de descansar, coitadinho, teve a fazer as tarefas da casa até à 1h30 da manhã e, pois claro, precisa de descansar... Não, não teve a fazer tarefas de casa, esteve a jogar, a dormir no sofá, a ter o tempo dele!!!  E eu? Eu que me lixe! Privação de sono? É ...

Gratidão - dia 2

Sou grata por: 1 - finalmente estar no sofá à noite 2 - mesmo reclamando, tenho pessoas que gostam de mim 3 - tenho um bebé alegre